Localizado em Igarassu, o Eco Luar prepara uma nova expansão, amplia a estrutura para eventos e mira turistas estrangeiros e de outros estados para fortalecer a região como destino turístico
O Litoral Norte de Pernambuco, que já viveu um período de maior protagonismo no turismo do Estado, começa a reunir novos investimentos na tentativa de recuperar espaço entre os principais destinos pernambucanos. Em Igarassu, uma das apostas vem da iniciativa privada. Instalado em uma antiga fazenda de coqueiros de 70 hectares, o Eco Luar Boutique Hotel acumula aproximadamente R$ 25 milhões em investimentos e prepara uma nova etapa de expansão.
Entre os projetos está a ampliação da estrutura destinada a eventos. O espaço, que atualmente comporta cerca de 100 pessoas, passará a receber até 250 convidados, aumento de 150% na capacidade. A estratégia é ampliar a atuação para casamentos, celebrações e encontros empresariais e, ao mesmo tempo, criar novos motivos para levar visitantes à região ao longo do ano. O empreendimento, segundo sua fundadora, a empresária Joelma Alves, está avaliado atualmente em mais de R$ 40 milhões.
A expansão acontece em um cenário de crescimento da atividade turística pernambucana. No acumulado de janeiro a novembro de 2025, o volume das atividades turísticas no Estado cresceu 3,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto a receita avançou 10,2%. Na comparação com 2019, antes da pandemia, o volume da atividade já estava 9,6% acima daquele patamar, enquanto a receita nominal apresentou expansão de 55,2%.
Para Joelma, os números ajudam a demonstrar que existe espaço para fazer com que esse movimento alcance também destinos que perderam participação no turismo pernambucano nas últimas décadas. “O Litoral Norte já teve uma presença muito forte no turismo de Pernambuco e reúne condições para voltar a ocupar esse espaço. Temos natureza, história, praias e estamos muito próximos do Recife. Mas potencial sozinho não movimenta turismo. É preciso investir, criar estrutura e oferecer experiências que façam as pessoas escolherem vir para cá e permanecerem na região”, afirma a empresária, que é natural de Taquaritinga do Norte, no agreste pernambucano.
De terra improdutiva a patrimônio milionário
A história do Eco Luar começou distante de um planejamento tradicional de hotelaria. Viúva ainda jovem e com um filho para criar, Joelma precisou encontrar uma maneira de preservar uma propriedade de aproximadamente 70 hectares que estava improdutiva e sob ameaça de invasão. O primeiro movimento foi ocupar e proteger o patrimônio. O negócio turístico surgiria depois.
Sem partir de um projeto fechado de hotel, a empresária começou a incorporar à propriedade referências encontradas durante viagens e experiências de hospedagem pelo mundo. Vieram os primeiros chalés, piscina, áreas de lazer e, posteriormente, novas estruturas e serviços.
“Não existia um grande plano dizendo onde chegaríamos. Existia uma propriedade que precisava ser preservada e uma decisão de fazer alguma coisa acontecer ali. Conforme fui conhecendo outros lugares, comecei a enxergar possibilidades para o nosso espaço. Muitas vezes voltava de uma viagem com uma ideia e queria começar a executar”, lembra Joelma.
Uma decisão levou à outra. A área que antes estava improdutiva passou a abrigar uma operação de hotelaria voltada principalmente a um público que procura privacidade, contato com a natureza e serviços personalizados.
A trajetória também explica parte da maneira como Joelma conduz o negócio. Em vez de esperar que todas as etapas de um projeto estejam definidas, ela diz preferir tomar decisões e estruturar a operação a partir delas.
“Eu sempre fui muito rápida para decidir. Quando conheço uma experiência que me encanta e percebo que pode fazer sentido aqui, analiso e faço. Se alguma coisa precisa ser corrigida, corrigimos. O hotel foi crescendo dessa maneira, mas hoje existe uma preocupação muito maior em transformar tudo o que construímos em uma estrutura que permaneça”, afirma.
Eventos entram na nova etapa de expansão
A ampliação da área destinada a eventos é um dos próximos movimentos desse processo. A aposta permite ao Eco Luar ampliar sua atuação para além da hospedagem de lazer. Casamentos, comemorações, encontros corporativos e eventos de pequeno e médio porte passam a integrar de maneira mais relevante a estratégia comercial do empreendimento.
A escolha também tem impacto além dos limites da propriedade. A realização de eventos demanda serviços de alimentação, decoração, transporte, produção, fotografia, audiovisual, entretenimento e outros fornecedores, criando uma cadeia econômica associada ao turismo.
“Quando investimos em uma nova estrutura, não estamos pensando apenas em aumentar o hotel. Queremos criar novas razões para que as pessoas venham ao Litoral Norte. Um casamento ou um evento empresarial traz hóspedes, fornecedores e serviços e movimenta uma cadeia que não termina dentro do empreendimento”, diz Joelma. A ampliação também é uma forma de reduzir a dependência do turismo exclusivamente de lazer e criar demanda em diferentes períodos do ano.
Estrangeiros no radar
Outra frente da estratégia de crescimento está fora de Pernambuco. O Eco Luar vem apostando na atração de hóspedes estrangeiros, especialmente argentinos, americanos e europeus, além de turistas provenientes de outros estados do Nordeste.
O movimento acompanha uma expansão significativa da presença internacional no turismo pernambucano. No primeiro trimestre de 2026, Pernambuco recebeu 52.031 turistas internacionais por via aérea, alta de 135,5% sobre o mesmo período de 2025. Pernambuco ficou atrás apenas da Bahia, que recebeu 83,5 mil, portanto foi de fato o segundo estado do Nordeste em chegadas internacionais por via aérea. Os números são oficiais, divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos a partir de dados da Embratur e da Polícia Federal.
A Argentina vem ganhando protagonismo nesse movimento. Em janeiro de 2026, 8.915 argentinos desembarcaram em Pernambuco, crescimento de 310% na comparação com janeiro de 2025. Eles representaram 55,56% dos visitantes estrangeiros registrados no Estado naquele mês. Portugal apareceu na segunda posição, com participação de 15,23%.
Para Joelma, o desafio agora é fazer com que parte desse visitante que desembarca no Recife descubra também o Litoral Norte. “O estrangeiro que chega a Pernambuco procura justamente aquilo que temos de mais particular: natureza, cultura, gastronomia e experiências que não encontra em qualquer lugar”, pontua. “O nosso desafio é mostrar que ele também pode seguir para o Litoral Norte e encontrar uma hospedagem de alto padrão, muito próxima da capital, mas com uma experiência completamente diferente”.
A estratégia também mira o mercado regional. Turistas de outros estados nordestinos estão entre os públicos que o empreendimento pretende ampliar, aproveitando a conectividade aérea e rodoviária do Recife e a curta distância entre a capital e Igarassu.
“Quando recebemos argentinos, americanos, europeus ou hóspedes de outros estados, percebemos o interesse por experiências ligadas à natureza e à identidade do lugar. O Litoral Norte pode entrar nesse roteiro. Não precisamos reproduzir outros destinos de Pernambuco. Precisamos mostrar aquilo que temos de diferente”, salienta a empresária.
Um novo ciclo para um antigo destino
A tentativa de recuperar a força turística do Litoral Norte passa também por uma nova leitura das potencialidades da região. Para o setor privado, valorizar os atrativos do entorno e integrá-los à experiência de quem visita o destino é parte importante de uma estratégia capaz de ampliar a permanência do turista.
O Litoral Norte reúne alguns dos principais ativos históricos e naturais de Pernambuco. Igarassu, uma das cidades mais antigas do país, abriga a Igreja dos Santos Cosme e Damião, considerada uma das mais antigas do país ainda em funcionamento, além do Convento de Santo Antônio e de importante patrimônio histórico e artístico. No entorno estão ainda destinos como Ilha de Itamaracá, Coroa do Avião e Maria Farinha.
Joelma acredita, porém, que a retomada não deve significar simplesmente tentar reproduzir o turismo que existiu na região décadas atrás. “Não acredito que seja uma questão de voltar ao que o Litoral Norte já foi. O turista mudou. Hoje ele procura experiência, serviço, gastronomia, conforto, sustentabilidade e lugares que tenham identidade. Temos que aproveitar o patrimônio que já existe e construir uma nova maneira de receber esse visitante”.
Luxo associado à experiência
É nesse reposicionamento que o Eco Luar tenta se inserir. A aproximadamente 25 quilômetros do Recife e 40 quilômetros do Aeroporto Internacional da cidade, o empreendimento busca associar hospedagem de alto padrão à natureza, privacidade e atendimento personalizado.
Dentro dos 70 hectares, o hotel oferece trilhas ecológicas e interação acompanhada por biólogo com animais como araras, papagaios, tartarugas e gansos. A estrutura conta ainda com massagens individuais e para casais, piscina semiolímpica com hidromassagem, quadra de tênis de saibro, beach tennis, áreas de leitura, redes, gazebos e espaços de contemplação.
Algumas das experiências foram pensadas especialmente para casais. Entre elas estão o sunset/sky dinner, em uma estrutura suspensa à beira do lago, o restaurante flutuante para jantares a dois e a sky table, uma mesa suspensa por cabos de aço. Há ainda espaços destinados a piqueniques e contemplação do pôr do sol.
No serviço, Joelma aposta no cuidado com detalhes que nem sempre aparecem para o hóspede como parte da estrutura física.
“Luxo não precisa estar somente naquilo que impressiona visualmente. Para mim, está muito no cuidado. No travesseiro, no sono, no silêncio, no aroma do quarto, na maneira como a pessoa é recebida. É pensar em alguma coisa antes mesmo que o hóspede precise pedir”, revela.
Ao longo dos últimos anos, o reconhecimento dos viajantes também tem reforçado a presença do empreendimento no mercado turístico. O hotel foi destaque no KAYAK Travel Awards e recebeu, por três anos consecutivos, o Travelers’ Choice, do Tripadvisor, em 2024, 2025 e 2026. A premiação é concedida a estabelecimentos que se destacam a partir das avaliações e experiências compartilhadas pelos próprios usuários da plataforma.
Crescer sem esgotar o principal ativo
A expansão do hotel também colocou a sustentabilidade entre as preocupações da operação. O empreendimento utiliza energia limpa, mantém iniciativas de gestão de resíduos e uso consciente da água e busca preservar grande parte da área natural da propriedade.
A lógica é não permitir que o crescimento da estrutura comprometa justamente o ativo utilizado para diferenciar a hospedagem.
“Não faria sentido ocupar 70 hectares com construções. A natureza faz parte da experiência e do valor desse patrimônio. Precisamos crescer preservando aquilo que faz as pessoas quererem estar aqui”, conta Joelma.
Depois de transformar uma propriedade improdutiva em um empreendimento de referência, resultado de anos de investimento e crescimento consistente, a empresária afirma que sua preocupação passa a ser também com a continuidade do negócio. A ampliação para eventos, a busca pelo mercado internacional e a aposta em experiências de alto padrão fazem parte desse novo momento. Mas a ambição, segundo ela, ultrapassa os limites do Eco Luar.
“Quero que o Eco Luar cresça, mas quero olhar ao redor e ver o Litoral Norte crescendo junto. Temos uma região com uma história turística muito importante e um potencial que ainda não é aproveitado como poderia. Se novos investimentos chegarem, se tivermos infraestrutura e bons produtos turísticos, podemos colocar novamente essa região entre os destinos mais desejados de Pernambuco”, conclui Joelma.
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